
A aurora boreal e o réveillon que nunca vou esquecer
Por Bella DrummondExperiência real
Baseada em uma viagem real. O "eu" deste texto é de quem esteve lá e prefere ficar nos bastidores; a Bella dá voz a essa experiência.
Foto de capa: Vincent Guth / Unsplash
- Local: Lapônia
- Época: Final de dezembro — Réveillon
- Temperatura: Entre −10 °C e −31 °C
- Céu / fenômeno: Aurora vista na maioria das noites
HistóriasLapônia3 de abril de 20266 min de leituraAtualizado em 7 de outubro de 2026
Eu poderia começar com os números. Quase 19h de voo. Oito dias. Três países. Temperaturas entre -10°C e -31°C. Um grupo de brasileiros completamente fora do seu habitat natural.
Mas a verdade é que nenhum número explica o que acontece quando você vê a aurora boreal pela primeira vez.
Como tudo começou
A ideia era simples — e ao mesmo tempo completamente maluca: passar o réveillon na Lapônia, com duas amigas, em busca de um fenômeno que a maioria das pessoas só vê em foto.
Foi por isso que escolhemos viajar com a Agência Aurora Boreal do Marco Brotto — e essa foi, sem dúvida, uma das melhores decisões da viagem. A estrutura foi impecável: viajamos de ônibus pela Lapônia, cruzando cidades da Noruega, da Suécia e da Finlândia, com alguém que conhece cada centímetro daquela terra gelada.
Um mundo que parecia de outro planeta
A Lapônia é uma região que se estende pelo norte da Finlândia, da Noruega, da Suécia e de parte da Rússia. É a terra dos povos Sámi, do Papai Noel — ao menos segundo a tradição finlandesa — e, acima de tudo, da aurora boreal. Fica acima do Círculo Polar Ártico, onde o inverno significa escuridão quase total e temperaturas que testam qualquer ser humano nascido em clima tropical.
Para quem cresceu no Brasil, a Lapônia é literalmente outro planeta.
Estradas cobertas de neve. Lagos completamente congelados. Paisagens que parecem pinturas — brancas demais para serem reais. E aquela escuridão particular do inverno ártico, onde às 3 da tarde o céu já está escuro como se fosse meia-noite.


Réveillon na Lapônia
O Marco escolheu um lugar especial para a nossa virada. Não era um bar. Não era uma festa. Era um campo aberto na Lapônia, a -31°C, com o céu limpo acima de nós.
E a aurora apareceu.

Éramos um grupo de brasileiros que, em sua maioria, nunca tinham estado num lugar com frio tão intenso — chegou a ser sofrido para alguns. Mas ficamos com os olhos cheios d’água diante desse espetáculo da natureza. Foi uma noite muito especial, mesmo com um frio de -31°C.
Um réveillon que vai ficar na minha memória para sempre.
As caçadas
É assim que eles chamam — caçadas. A busca pela aurora boreal é uma expedição noturna, cheia de expectativa e adrenalina silenciosa.

Conseguimos ver a aurora na maior parte das noites. Fizemos passeios com huskies siberianos. Andamos de snowmobile naquela escuridão que já conhecíamos bem — e que, estranhamente, já começava a parecer normal.
Verde. Linda. Dançando. Tomando o céu inteiro.
Tromsø — a cidade que vimos de passagem (e que vale uma parada)
Embora o foco da viagem fosse a caçada, tivemos a sorte de conhecer um pouco de Tromsø — e me arrependo de não ter tido mais tempo.
O centro da cidade, ainda enfeitado com a decoração de Natal, tinha aquele charme escandinavo que parece cenário de filme. Ruas iluminadas, neve fresca, lojas aquecidas. Uma dessas cenas que você guarda nos olhos.
Jantamos no Restaurante Egon — boa comida, ótimo custo-benefício, exatamente o tipo de lugar que eu gosto de recomendar: sem frescura, mas com qualidade.
Outro momento muito especial
Estávamos voltando de uma caçada e chegamos em Kiruna — a cidade onde estávamos hospedadas — quando a aurora apareceu de novo. Dessa vez, sobre a cidade. Saímos correndo do hotel como se fôssemos perder o trem. Casacos abertos, câmeras na mão, rindo e gritando.
A aurora é assim. Ela não pede licença. Ela aparece — e você para tudo.
O Marco, que já viu centenas de auroras, ainda tem a empolgação e a emoção de quem está vendo pela primeira vez.

Jukkasjärvi: o povo sámi e o Icehotel
A poucos quilômetros de Kiruna fica Jukkasjärvi, uma pequena vila às margens do rio Torne. Foi lá que visitamos o Nutti Sámi Siida, um espaço dedicado à cultura sámi e às renas. Os Sámi são o povo indígena do norte da Europa e vivem há milhares de anos em Sápmi, território que atravessa o norte da Noruega, Suécia e Finlândia e chega à Península de Kola, na Rússia. Foi uma passagem rápida, mas interessante para conhecer um pouco mais sobre a história e a cultura de quem vive nessa região há gerações.

Ali perto fica o Icehotel, que também visitamos. Todo inverno, ele é reconstruído com gelo retirado do rio Torne, e cada suíte de arte é criada por artistas diferentes. Por isso, o hotel nunca é exatamente igual de um ano para o outro.

Vale a pena?
A Lapônia no inverno não é uma viagem fácil. O frio é sério. A escuridão é real. Mas é exatamente por isso que ela transforma. Você volta diferente — com um olhar novo para os dias ensolarados do Brasil e com uma vontade enorme de viver essa magia de viajar novamente.
Oito dias, três países, muitas noites de céu verde. No fim, a Lapônia foi mais do que qualquer expectativa que eu pudesse ter.
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